Mostrando postagens com marcador artigo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador artigo. Mostrar todas as postagens

14 de fevereiro de 2014

Dançando pelo fim da violência


8 de março: período para renovar a luta contra a violência feminina
"Uma em cada três mulheres do planeta será espancada ou estuprada no decorrer da vida." Essa é a afirmação que inspirou o nome do evento global "Um bilhão que se ergue" (One billion rising), que acontece em São Paulo e no Recife no próximo dia 16. "Um bilhão de mulheres violadas é uma atrocidade. Um bilhão de mulheres dançando é uma revolução", diz no Facebook a chamada do evento, que acontece em diversas capitais do planeta.
A ideia é reunir mulheres e homens para dançar, numa coreografia coletiva, pelo fim da violência contra mulheres e meninas. "One billion rising" (YouTube) congrega cerca de 5.000 organizações, ONGs e universidades em todo o mundo. O movimento tem sua origem na peça "Monólogos da Vagina", escrita pela dramaturga e ativista Eve Ensler com base em entrevistas sobre a sexualidade feminina e o estigma social em torno do estupro e do abuso.

A peça fez sucesso em diversos países - no Brasil, teve direção de Miguel Falabella e ficou em cartaz por mais de uma década. Ao final de cada apresentação, Ensler encontrava mais mulheres que queriam compartilhar suas histórias de sobrevivência, transformando o espetáculo em mais do que uma manifestaçãoartística sobre a violência feminina. Em 14 de fevereiro - o Valentine's Day, dia dos namorados norte-americano - de 1998, Eve e um grupo de mulheres de Nova York criaram o V-Day, para demandar o fim da violência contra mulheres. Nascia aí a ideia do "One billion rising".

No Brasil: Quatro entre cada dez mulheres brasileiras já foram vítimas de violência doméstica, revelam os números do Anuário das Mulheres Brasileiras 2011, divulgado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres e pelo Dieese. Entre 1998 e 2008, cerca de 42 mil mulheres foram assassinadas - dez a cada dia -, 40% delas dentro de casa, conforme dados de outro estudo, o Mapa da Violência 2011, realizado pelo Instituto Sangari a partir de informações do DATASUS/Ministério da Saúde.

Movimentos de mulheres vinham denunciando essa situação desde os anos 1970, e deram os primeiros passos na formação de coletivos de apoio às vítima da violência. Foram criadas as primeiras Delegacias da Mulher. Mas foi só a partir dos anos 2000 que a questão ganhou a esfera nacional, com a criação, em 2003, da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM).

Um marco no enfrentamento da violência de gênero no Brasil foi a lei 11.340, de agosto de 2006 - conhecida como Lei Maria da Penha, em homenagem a Maria da Penha Fernandes, que foi atingida por um tiro do marido enquanto dormia, ficou paraplégica e sofreu tortura, mas veio a público e conseguiu levar seu caso a cortes internacionais.
Desde a sua criação pela SPM, em 2005, até março de 2012, a Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180, com funcionamento 24 horas, inclusive fins de semana e feriados - realizou 2.527.493 atendimentos. De 2006 a março de 2012 foram registrados 603.906 relatos de violência, assim tipificados segundo a Lei Maria da Penha: física 182.857 (30%, vai de lesão corporal leve ao assassinato), psicológica 76.620 (12,8%), moral 32.168 (5,4%), sexual 5.899 (1%) e patrimonial 4.920 (0,8%).

A violência parte frequentemente do marido ou companheiro. No mesmo período, das 131.047 informações sobre o tempo de convivência entre vítima e agressor, o relacionamento era de dez anos ou mais em quase 40% dos casos; e entre cinco e dez anos em cerca de 20%. A frequência das agressões foi registrada em 228.180 atendimentos, sendo diária em aproximadamente 60% e semanal em cerca de 20%. Foram presenciadas por filhos e filhas em mais de 65% dos casos; em quase 20%, eles foram agredidos junto com as mães.

Manifestação: A manifestação acontece em São Paulo das 14 às 18 horas do sábado, 16 de fevereiro, no vão do MASP (Museu de Arte de São Paulo). As danças e coreografias serão ensaiadas a partir das 12 horas, pelos participantes concentrados no museu. No Recife, a dança-protesto ocorrerá na Praça do Marco Zero, às 19 horas.

Na página do Facebook Um bilhão que se ergue em SP encontram-se os vídeos da coreografia em SP e da coreografia original. No site oficial da campanha podem ser assistidos videos da autora Eve Ensler e da atriz e militante Jane Fonda dizendo porque se levantaram contra a violência. Aqui, o ator e diretor Robert Redford dá seu depoimento sobre o tema.

Suzana Lourenço, 
 pós-graduanda em Integração da Améria Latina pela USP. Estuda temas relacionados a política ambiental e participação da sociedade civil em processos decisórios. 
Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil, Biblioteca Diplo

6 de fevereiro de 2014

O lençol que não tiramos¹

¹Os artigos aqui publicados não necessariamente refletem a opinião da SecMulher

Por Maria Eduarda Fernandes e Michael Matos²

Homem s.m. Indivíduo dotado de inteligência e linguagem articulada, bípede, bímano, classificado como mamífero da família dos primatas, com a característica da posição ereta e da considerável dimensão e peso do crânio.

Mulher s.f. Ser humano do sexo feminino. / Esposa.

Estas definições podem ser encontradas no Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, um dos principais referenciais do nosso idioma. Há alguma coisa, essencialmente, errada com essas definições? Não, são ambas verdadeiras. Porém, no caso da mulher, são apenas uma parte da verdade. É uma definição simplificada – ou pior, simplista. A nossa sociedade, desde as suas raízes, vem fazendo isso com o conceito de mulher: tirando a sua complexidade, lhe privando de direitos, de desejos, atribuindo-lhe papéis. A lista continua até que ela seja reduzida, apenas, à fêmea.

As desigualdades de gênero vão bem além dos comportamentos machistas que – infelizmente – estamos tão acostumados a presenciar. Por vezes, o machismo se torna tão intrínseco que já nem o identificamos mais. Por exemplo, você já se perguntou por que sempre se espera que o homem ‘tome a iniciativa’ na balada? Por que as mulheres tem receio de jogar uma cantada para alguém do sexo oposto? Qualquer ‘porque’ que você tenha pensado é, na verdade, uma construção social – e daquelas machistas.

Pra entender melhor as relações de gênero e como são construídas, conversamos com a sexóloga e pesquisadora Alda Batista, também professora de Psicologia da Faculdade Integrada do Recife. “Gênero quer dizer a maneira como a sociedade define que deve ser o comportamento de homens e mulheres. Ora, o comportamento é a expressão do pensamento, portanto o conceito de gênero tem a ver com a forma como nós somos educados para ser homem e pra ser mulher”, explica Alda. Para ela, fenômenos sociais como o capitalismo e o individualismo tiveram importantes papéis na construção atual das relações de gênero. “Antes as mulheres ficavam em casa para ter filhos e criá-los. Era a divisão social, a mulher ficava em casa e o homem ia pra rua. O problema é que deram valor só ao trabalho da rua, o trabalho de casa era completamente desvalorizado.” Com isso se criou uma relação de superioridade do gênero masculino sobre o feminino. O homem era o provedor, e, ao chegar em casa, tinha que ser servido. Apesar dos papéis sociais e da sociedade em si terem mudado muito nas últimas décadas, a relação de desigualdade entre os gêneros insiste em perdurar.

Isso se torna particularmente evidente em relação à sexualidade das mulheres. A sociedade ensina as mulheres a temerem e terem vergonha do sexo. Enquanto a sexualidade dos homens é estimulada e até aplaudida desde cedo, meninas crescem ouvindo que precisam ser “mulheres direitas”, que devem casar virgens e serem puritanas em relação ao sexo. “Sempre foi negado às mulheres o prazer. Ela é instruída a reprimir o desejo, pois para ser uma moça decente ela não pode transar antes do casamento. Mas para o menino não, ele é ensinado que tem que querer.”, confirma Alda.

Então, de forma muito inerente nos comportamentos sociais, mulheres crescem ouvindo que sexo é sujo, é pecado. Aprendem desde muito cedo a não buscar o seu próprio prazer, a renunciá-lo porque não é coisa de menina de família. Veem na novela que mulher finge orgasmo, porque importante mesmo é dar prazer ao seu homem e manter a relação. Escutam todos os dias que mulher gosta mesmo é de dinheiro e que se o homem quer levá-la pra cama precisa pelo menos pagar um bom jantar (e o motel, claro). São essas pequenas coisas, presentes praticamente em tudo, que contribuem para a manutenção das desigualdades de gênero. “A gente é bombardeada o tempo todo com coisas machistas, nos mínimos detalhes. Às vezes, inconscientemente, me vejo reproduzindo esses valores, sabe? Aí quando transo com uma pessoa aleatória, por exemplo, fico me perguntando se sou muito fácil, muito ‘dada’. Mas sei que isso não é verdade. Não existe isso.", diz Julia Marques, 20, estudante de Administração. Julia é feminista e se considera aberta e progressista em relação ao sexo. Ainda assim, ela se vê reproduzindo valores machistas, ocasionalmente, de tão forte que é essa influência.

Outra prova de como as mulheres são constantemente punidas pela própria sexualidade são os cada vez mais frequentes casos de exposição de momentos íntimos, como aconteceu com a estudante Fran Santos, de Goiânia. Ela teve um vídeo íntimo divulgado nas redes sociais por um ex-namorado. O “pecado” de Fran foi se permitir confiar no seu parceiro, em um momento íntimo. Fran não é “vadia”. Fran é mulher. E, nesse caso, foi vítima da falta de caráter do seu parceiro e de uma sociedade que trata o seu prazer como errado. “Quando uma mulher transgride a cultura instituída, ela sofre sérias penalidades. Mulher não tem direito a dizer que gosta de sexo, ou que tipo de sexo ela prefere, isso é uma coisa inaceitável. Ela está se apropriando de algo que é do homem: o desejo. Nesse aspecto, ainda estamos na idade das cavernas.”, comenta Alda sobre o caso. “Mas o que a gente pode esperar de uma sociedade que culpa a mulher quando ela é estuprada? Que diz que ela provocou, que ela estava usando roupa curta demais.”, completa.

Entrevistamos mulheres de todas as idades sobre o caso Fran. Apesar de não retratar a maioria das respostas, ouvimos depoimentos como “Qual a utilidade de se deixar filmar em momentos íntimos? Uma parcela de culpa é da própria pessoa.” (Eleanor*, 22). A “utilidade”, cara Eleanor, é realizar uma fantasia, ou apenas apimentar a relação com o parceiro. Fran, como toda mulher, tem os seus desejos e se permitiu agir de acordo com eles. E não deveria haver nada de errado com isso. Para Fran, porém, deu tudo errado. Ela precisou largar o emprego e a faculdade, mudar a aparência, e ainda ficou mais de um mês sem sair de casa, com medo do assédio (e até violência) que poderia sofrer.

Movido pela situação de Fran, o deputado federal e ex-jogador de futebol Romário apresentou um projeto de lei que torna crime a divulgação indevida de material íntimo, virando uma das vozes mais fortes em defesa da causa. “Nossa sociedade costuma julgar as mulheres. É como se o sexo denegrisse a honra delas.”, disse Romário, em entrevista à revista Marie Claire. “Os comentários machistas não vêm só dos homens, muitas mulheres criticam as vítimas também. Quando divulgo meu projeto na rede, recebo comentários absurdos apontando a mulher como culpada. Coisas do tipo… ‘se ela se desse o valor, não passaria por isso, que sofra as consequências’ ou ‘mulher direita não se deixa filmar’”, completa.

Gabi Machado, publicitária de 23 anos, tem uma opinião parecida sobre o assunto. “Acho absurdo ainda existirem tantos e tantos casos como o da Fran: uma mulher condenada socialmente por fazer sexo e se deixar filmar. Se fosse um homem em seu lugar, em vez da condenação pública, viriam os aplausos, os elogios, os rótulos de 'garanhão', 'pegador', etc. O comportamento que faz os homens serem classificados como machos-alfa é exatamente o mesmo que faz as mulheres serem classificadas como vagabundas. Pra uma mulher, não existe meio-termo: ou se é santa ou se é puta. Na época do ocorrido com a Fran, foi assustador acompanhar a repercussão nas redes sociais e principalmente nos canais de notícias brasileiros. Os conselhos de 'especialistas' sobre o caso eram basicamente: tome cuidado em quem você confia e não fique se deixando filmar para evitar que isso aconteça. A clássica culpabilização da vítima, pura e simples. Ninguém diz aos homens: não divulguem fotos e vídeos pessoais por aí. Eles dizem às mulheres: não se deixem filmar, e se possível, não transem.

Alda Batista, nossa sexóloga, ainda fala que “A sexualidade feminina é negada. O prazer feminino é negado. A mulher ainda é vista apenas como um sistema reprodutivo”. Ao perguntarmos se as mulheres tem se libertado desses tabus e se, com o amadurecimento, se tornam mais livres, Alda diz que é muito relativo. “Liberdade sexual requer muito autoconhecimento. E se tem uma coisa para a qual as mulheres não foram treinadas foi se conhecer. Não conhecem seus corpos. Têm dificuldade de fazer um autoexame, por exemplo, porque o corpo é feio, o corpo é sujo. Eu acho que é uma minoria, que vai amadurecendo e vai se dando mais liberdade.”

Outra entrevistada, Nathalia, de 19 anos, diz o seguinte: “Acredito que toda a repercussão em torno do vídeo de Fran advém do fato de ela ser mulher. Desde cedo nós, mulheres, temos nossas condutas sexuais tolhidas por alusões ao fato de que isso ou aquilo ‘não é coisa de mocinha’, ou ‘é coisa de puta’. Acontece que, enquanto os homens (e, quando afirmo isso, ressalvo os que não se enquadram) são estimulados a expressarem sua sexualidade das mais diversas maneiras (desde a não reprovação da masturbação ao glorificado compartilhamento das experiências sexuais), as mulheres são conduzidas a um caminho de não conhecimento do próprio corpo, dos próprios instintos (sim, instintos porque não são só os homens que podem se deixar levar por eles). A exposição de Fran começa quando a mãe não deixa sua filha colocar a mão do ‘pipiu’, quando o rapaz taxa certa menina como ‘pra casar’ enquanto outras são ‘só pra ficar’. Fran foi tolhida só por expressar ao seu namorado (e mesmo que fosse só a um ‘peguete’) seu fetiche, seu desejo. O rapaz não foi questionado pela conduta antiética, nem por ter quebrado a confiança da moça. Enquanto ela teve de ser repreendida por expor o que sentia, ele foi resguardado por expor o que não podia.”

Ainda com o intuito de entender como essas “restrições” sociais acontecem na prática, perguntamos às nossas entrevistadas se já deixaram de fazer algo sexual que tinham vontade, por medo de serem julgadas pelos parceiros ou pelos olhos da sociedade. As respostas foram das mais diversas. Confira algumas abaixo:

“Não. Eu admito que já tive receios, já pensei duas vezes... mas em todas as vezes eu cheguei a conclusão de que não vale a pena se privar de nada que a gente queira (e que não vá fazer mal a ninguém!) só porque outra pessoa não entende ou não respeita. O meu espaço é meu, o meu é corpo é meu. Quem decide sou eu.” Fernanda, 24.

“Apesar de muitas vezes ficar sem graça, não tenho problemas em expor pra ele o que eu desejo.” Renata*, 22.

“Eu tenho vontade de ter relações extraconjugais, mas acho que ainda não chegou a hora. Tirando isso sou bem resolvida sexualmente. Acho que sim, sempre deixamos de fazer algo por pensar nos outros, infelizmente.” Amanda*, 31.

“Sim, por exemplo, atitudes mais "atrevidas" que vemos em filmes.” Eduarda*, 21.
“Já tive vontade de ‘dar em cima’ de alguns garotos, mas nunca tive coragem seja por timidez ou por medo de parecer atirada.” Gabrielly*, 22.

“Sim. Numa das minhas relações, fiquei sexualmente frustrada por não poder falar coisas mais obscenas ou usar algumas posições mais incomuns.” Claudia*, 21.

“Sim, no início da relação é comum você querer fazer algo, mas sentir vergonha de pedir e ser julgada, ou pelo cara se negar a fazer, por não gostar, como por exemplo sexo oral, que nem todos os caras gostam de fazer.” Andreza, 24.

“Não. Algumas vezes acredito que deixamos de ter relações por não querermos ficar "falada", por medo que o cara conte a alguém, etc. Mas durante o ato, nunca deixei de fazer nada com medo do que fossem pensar. Não faço vídeos por mim mesmo, não é algo que eu curta, além de ser arriscado.” Danielly*, 20.
“Sim. Demorei a aceitar a posição 69, por medo do que meu parceiro iria pensar sobre essa posição e sobre minha aceitação em fazê-la.” Paula, 21.

“Não. Já fui muito julgada por não ter um(a) parceiro(a) fixo(a), ou ter várixs ao mesmo tempo. O problema é que uma mulher ter vida sexual ativa é visto como algo imoral pela sociedade.” Jade, 19.

“Parando agora pra pensar percebi que nunca tive vergonha de fazer nada com meus parceiros. Sempre foi bem tranquilo para fazer o que desse na telha. Mas, quanto a família, por exemplo, deixo de me masturbar quando estou na casa dos meus pais porque sei que se soubessem disso, iriam ficar desapontados e até me bateriam...” Mariá*, 22.

“Sim, eu evito fazer sexo com pessoas que acabei de conhecer com medo de me ‘queimar’ e mais de uma vez já deixei de fazer sexo oral com medo de ser rotulada de puta.” Luiza, 24.

“Não, me sinto completamente segura e íntima do meu parceiro.” Ana, 22.

“Claro que sim, a culpa e a moral católica perseguem as mulheres. O sexo pra mulher ainda é complicado. Se der de primeira é puta, se não der é fresca e pensei que com a idade isso mudaria, mas não tenho visto isto.” Pierina, 43.

“Inicialmente, sim. Hoje, porém, percebo que o medo de sugerir algo diferente parte dos próprios homens - justamente por serem acostumados a enxergar toda mulher como ‘puritana’ - e que na maioria das vezes eles apreciam a ‘ousadia’ feminina sim.” Roberta*, 22.

“Nunca!!!! Graças a Deus.” Karla, 48.

           Apesar dos muitos avanços conquistados pela causa feminista nas últimas décadas, ainda há um longo caminho a ser percorrido, especialmente no tocante à liberdade sexual das mulheres. “No passado, se fazia sexo com um lençol cobrindo o corpo todo da mulher, apenas com um buraco para a penetração. Tiramos o lençol físico. Simbolicamente, ele continua lá.”, conclui Alda, brilhantemente. E, como disse a pioneira e atualíssima Simone de Beauvoir, “Não se nasce mulher: Torna-se.” Nossa sociedade está caminhando para o estado em que as mulheres possam, finalmente, tornar-se.

²Alunos de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco



23 de janeiro de 2014

MÍDIA E A SITUAÇÃO CARCERÁRIA BRASILEIRA: ATÉ BANANAS!

Da redação do Blog : Blogueiras Feministas

Texto de Camilla de Magalhães Gomes.
“TOMATE, CEBOLA, PIMENTÃO, OVOS, SACOS DE ARROZ, ÓLEO E ATÉ BANANAS”.
Em 2013, ocorreram mais de 50 homicídios no Complexo Penitenciário de Pedrinhas em São Luís, no Maranhão. Mais um reflexo da situação carcerária nacional. Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Maranhão. Todo estado brasileiro tem sua história de horror própria do sistema penitenciário.
Tortura, condições de vida e de higiene mais do que precárias, seres humanos tratados como lixo (já passamos do “tratados como animais há bastante tempo), violência, mortes, superlotação, reincidência… São esses os termos que definem o sistema penitenciário brasileiro.
No começo deste mês, uma notícia teve repercussão nacional e internacional: em um vídeo, presos do Complexo Penitenciário de Pedrinhas mostram outros detentos sendo decapitados. A partir daí, a situação carcerária no Maranhão virou tema e mobilizou mídia, Estado, organismos internacionais, redes sociais. Vimos de denúncias sobre as condições precárias do complexo a questionamentos sobre a eficácia do “combate ao crime”. Esse texto é sobre um desses momentos, promovido pela mídia.
Quando falamos em mídia e sua responsabilidade como agência informal do sistema penal, chovem os exemplos: Datena, Marcelo Rezende, as muitas versões do telejornal Balanço Geral… Sempre — ou na maioria das vezes — os exemplos são de canais de televisão diferentes da Rede Globo. Ainda que possamos reconhecê-la como parte disso, raramente a incluímos na crítica, já que chutar cachorro morto – no caso, esses programas sangrentos – é mais fácil.
Porém, o jornalismo que vende o medo, a repressão e a política de lei e ordem não precisa do sangue. É feito com ares de “denúncia”, de “reportagem investigativa”, com “imagens exclusivas” e a capa do compromisso e da seriedade com a apuração de um fato que “atordoou o país”.
Aí, a história é outra e a venda é mais garantida: se alguns se chocam com o escândalo, o sangue, o exagero dos programas açougueiros; o “jornalismo” com bancada bonita, canal a cabo e tom de seriedade fecha o negócio e ganha aqueles que não compraram no açougue.
É o que esse vídeo do canal GloboNews faz muito bem.
O caso Pedrinhas escandalizou o país com suas cabeças cortadas. O canal, no lugar de procurar noticiar a superlotação, as condições do presídio, os agentes corruptos ou que não tem condições de exercer sua atividade no presídio, decide “denunciar” que havia uma “fartura de alimentos” nas celas “sem nenhuma repreensão”. Ou em uma cela, claro, porque a reportagem não se preocupa em falar que cela, quantas celas, a quem “pertence” a cela, como estão os demais presos.
E, para piorar, fala de “regalias”. Não quer avaliar como ou porque os presos possuem fogão nas celas – ou alguém acha que chegaram ali no bolso de algum deles? Mas é bem eficaz em fazer tomadas precisas sobre os alimentos. “Até bananas”. Vejam vocês, essas pessoas que queríamos excluir da sociedade, jogar num depósito, trancar a chave e deixar que se matem, estão comendo até bananas. Regalias.
Vou guardar esse vídeo. Não há Datena que faça um serviço tão eficiente em criar o medo.
http://blogueirasfeministas.com/2014/01/midia-e-a-situacao-carceraria-brasileira-ate-bananas/